| Foto: Jesse Draper |
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Madrugada de clarões e tempestade. Alguém dirige por uma estrada deserta, sozinho. Na curva mais perigosa, encontra uma menina, encharcada, sozinha, dando sinal para o carro parar. Ele para. Ela pede ao motorista para descer o barranco ao lado e salvar a mãe, ferida no acidente que as duas acabavam de sofrer. A garota insiste em ir junto, para mostrar onde a mãezinha está. Naquele breu, seria impossível encontrar a mulher em tempo de salvá-la. O motorista – e médico – percebeu, ao carregá-la nas costas, que era bem leve..."Ali, moço, bem atrás daquela árvore. Corre lá, se não minha mamãe morre!" Não dava pra ver muita coisa. O médico só ouve uma respiração ofegante, distante, e vai seguindo-a. Viu a mulher, iluminada pela luz da lua, que já espantara as nuvens pesadas. Mais que depressa, envolve-a entre os braços e...sente o ante-braço tatear um outro corpo, gelado. Era a menina. Morrera na mesma horinha da queda. Sua alma fora até a estrada, buscar socorro para a mãe.
Redundância dizer que nem piscávamos ao ouvir essas histórias. Pra aumentar nosso terror, elas eram contadas preferencialmente em noites chuvosas, naqueles dias em que a energia elétrica acaba e se fica só com o fogo insinuador das velas. E como duvidar da veracidade daqueles "causos", se os próprios pais, avós e tios os contavam?
A um primeiro olhar, pode parecer que os adultos nos submetiam àquelas sessões de terror por pura maldade, para nos colocar medo e descansar das nossas travessuras. Também. Mas, com o tempo, fui percebendo, que aqueles encontros eram verdadeiros rituais de iniciação na vida adulta. Ali nós, pirralhos de 3, 7 anos, tínhamos nosso primeiro contato com o transcendental, com a morte, com a existência de "fantasmas", reais ou fictícios, e a necessidade de encará-los.
Os causos, seus mitos ou ensinamentos, tinham que ser passados a diante feito corrente. Na pré-adolescencia, nós, vizinhos, organizávamos nossas próprias rodinhas, com nossas próprias histórias, quer dizer, aquelas que cada um ouvia em casa. Aí, não sei se pra provar valentia, pra se tornar popular ou simplesmente pelo prazer de ver o outro se render à sua narrativa, partíamos para um enfrentamento coletivo - e diário - das assombrações. Cada dia em uma esquina, em uma calçada.
Morríamos de medo. Tinha gente que até chorava - geralmente o irmãozinho mais novo, que acompanhava o mais velho, contador de histórias. Ninguém ousava levantar pra ir embora, ainda mais sozinho. Vai que na hora que eu passar alí onde a luz do poste está quebrada a "luz-perseguidora" aparece pra mim! Então íamos ficando até a hora marcada pela mãe. Na verdade, não sei ficávamos pelo terror ou pela vontade de continuar naquela adrenalina. Na mesma medida em que aterrorizam, essas histórias fascinam. Quando o sono vinha forte, partíamos todos juntos, tipo gangue, para deixar cada um em sua respectiva casa. Os mais medrosos primeiro.
Mas você cresce e percebe estar sozinho com suas assombrações, com seus medos. Pior, que muitos existem só dentro de você. Uma vez, no colégio, fizeram aquela brincadeira da caneta na mesa em que eu estava durante o recreio. Tive que participar. Todos os presentes tinham que segurar, com o indicador, uma caneta e invocar uma pessoa já morta para um diálogo. Ela moveria a caneta na direção de letras escritas e um papel, até ajuntar sílabas, formar palavras e responder nossas perguntas. Nunca tinha dado bola para aquilo, até ver a caneta se mexer...nem cogitei que ela era empurrada por algum colega experiente no “truque”. Quis sair imediatamente. "Não pode! Quem abandona a mesa depois é possuído pelo espírito".
Foi meia hora de terror, seguida de mais uma semana sem dormir direito, com medo de o espírito me perseguir. Ao terminar o recreio, eu abandonara a caneta, porque tinha que voltar para a aula. Menos mal que outras colegas da mesa ficaram no mesmo estado de choque. Os próximos recreios foram quase que terapias de grupo. Não se tratava mais de mula-sem-cabeça ou mulher-de-branco. E se estivéssemos mesmo lidando com espíritos de pessoas que viveram de verdade? Para onde as pessoas vão quando morrem? Existe vida após a morte?
Aquela história de fantasmas e medo chegara ao tangível, à realidade. Percebemos que havia um mundo a ser temido de verdade e os pais nem sempre estariam por perto. Não adiantava esconder no cobertor da mãe, chamar o pai de madrugada. Descobre-se também que a família não é o único porto-seguro: amigos existem e você pode contar com eles. Bom, mas às vezes é só você mesmo e o perigo, ou melhor, o medo. Estamos sujeitos a lidar a solidão, a dúvida, os fantasmas interiores.
Mas um dia viramos adultos. E vemos que há monstros que nos perseguem a vida inteira. Por mais que sejamos racionais, iluministas, universitários, somos vulneráveis àqueles medos eternos, nascidos de traumas. É como os odiados defeitos que você tenta apagar de sua personalidade ou as experiências ruins que tenta afastar da memória, até sentir que não te afetam mais. Mas, é só frouxear a vigilância, e lá está você tendo que enfrentá-los de novo.
Aos dois anos, acho, fui a um circo com um tio. Em um número, aparecia um diabo todo vermelho, com chifres, cauda em seta, cara preta, olhos e dentes bem brancos, tipo os de um vampiro. Havia escuridão, um fogo e de repente o capetão surgia, do nada. Fiquei paralisada. Ninguém me fazia dormir. Até hoje, quando vou fechar uma janela à noite, olho para a escuridão do lado de lá e lembro-me daquela figura. Tenho a sensação que, ao tocar a janela, ele vai aparecer ali, como que por mágica, com aquele riso que não se move e...percebo minhas mãos frias e suadas (como estão agora).
Em outra ocasião da minha infância, em dia de molecagem extrema, a mãe de uns vizinhos disse que a assombração viria nos pegar se não parássemos. Adiantou de nada. Então ela mesma se vestiu de assombração e nos esperou atrás da casa, lugar escuro por onde tínhamos que passar. Ao ver a "assombração", soltei um grito, caí nos braços de não sei quem e perdi a fala. Ainda hoje, quando está escuro e vou dobrar uma esquina, a beirada de uma casa, acho que alguma entidade macabra está esperando por mim.
O curioso é que esses medos de assombração não me atingem em São Paulo. Aí penso que isso de "causo" e história de assombração é mesmo coisa de nós mineiros. Às vezes, nesses devaneios pré-sono, chego a cogitar que as assombrações não chegam a São Paulo, porque o barulho da cidade as espanta. E os próprios habitantes da cidade querem que ela permaneça essa barulheira, um caos de tudo acontecendo ao mesmo tempo, justamente pra espantar os fantasmas. Diante de um mar de possibilidades, vão sempre pulando de um problema "mundano" pra outro. Um jeito de nunca estar a sós com a solidão. Sem ela, sem o silêncio, jamais terão que lidar com assombrações existencialistas. Uma droga perfeita.
...passando a manteiga no pão".
(Piadinha a que recorríamos nas rodas de “história de terror”, quando a coisa ficava muito tensa).
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Comments
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