| Fotos: Mariana Queiroz |
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Manhã de terça-feira de junho deste ano e Ela acordou com Ele rindo ao seu lado. Ele sempre ri no meio do sono. Ou fala. Ela olhou no relógio e ficou muito feliz que ainda eram 6 da manhã e o ônibus de Ele sairia só as 8h30. Por um tempinho não conseguiu dormir de novo. Ficou ali deitada olhando deslumbrada a suíte do Mayflower Hotel (aquele mesmo em que o governador de New York foi visto com a prostituta - e que seu “pai americano” do intercâmbio, muito generosamente, havia pago todas as despesas para que Ela e seu namorado tivessem um maravilhoso feriado na capital americana). Então Ele riu de novo, a cabeça de Ela balançou no peito dele e a garota achou engraçado e se ergueu pra vê-lo. Devia ser um sonho bom. Talvez com praia, com alguma musa da televisão, com os amigos reunidos e uma garrafa de rum ou um cigarro de maconha... Todas essas coisas que povoam essa mente aos 19 aninhos. Mexeu no cabelo dele e, enquanto Ele vinha vindo do sonho naquele jeito perdido de quem não quer acordar, ficou pensando como era gostoso assistir Ele dormindo. Inevitavelmente, Ela pensou na foto da capa do jornal da manhã anterior...
A foto de abertura, ocupando quase a metade da página, mostrava uma garota entre os 20 e 27, com a cabeça encostada num túmulo. A feição tão terna quanto a que Ela tinha ali, segundos antes, com a cabeça no peito do namorado, escutando ele rir enquanto dormia. A moça do jornal também, o mais perto que podia do namorado adormecido... que morreu no ano passado na guerra do Iraque. E, se na hora que viu aquele jornal Ela automaticamente havia se colocado no lugar da moça, naquele momento, estava fazendo o trabalho oposto. A moça poderia estar ali, olhando o namorado num sono com volta. Em vez disso, no dia anterior, passara um bom tempo ouvindo políticos e soldados falando do heroísmo daqueles como seu amado, na comemoração do Memorial Day (celebração dos soldados americanos mortos em combate).
Se fosse o namorado de Ela, guardaria o dia pra protestar. Ela jogaria ovos na Casa Branca. Ela escreveria cartas para os jornais. Ela contaria a todos que ele parou de ter sonhos bobos de pouco mais de 19 anos pra ir morrer numa guerra que não faz sentido algum.
Mas não era isso que Ela tinha visto na celebração do Memorial Day em Washington. Filas enormes de pessoas passavam em frente ao Monumento dos Mortos no Vietnã para ler os nomes deles em silêncio. Em respeito??? Não... em adoração! Cartões do tipo "Frank, filho amado, herói nosso" cobriam o caminho. Flores repousavam no monumento da segunda Guerra Mundial. E, enquanto isso, 700 mil motociclistas de toda parte dos EUA desfilavam em parada, milhares de pessoas se reuniam em frente ao Lincoln Monument para cantar o hino americano com as mãos no coração e lágrimas nos olhos. Mas tinham um orgulho imenso, que só se vê no povo americano. Um orgulho das guerras que lutaram.
Ela, sinceramente, não entendia. E, se existem milhares de coisas sobre o povo americano que levou quase um ano para que entender, o orgulho das guerras é uma que em centenas de anos Ela não conseguiria compreender. Quando você lê isso agora provavelmente não faz idéia de qual é a sensação que aquele povo transmitia. Eu vou tentar fazer entender. É aquela sensação que você teve quando o Tom Hanks morreu no Resgate do Soldado Ryan ou quando Mel Gibson liderou a grande batalha em Coração Valente.
Ela entendia que muitos daqueles rapazes, não muito mais velhos que os 19 aninhos do seu namorado, tinham morrido de forma heróica tentando salvar amigos que amavam. E não que Ela não ache que morrer por uma causa, às vezes seja necessário e heróico (vide os nossos mortos na ditadura). Mas a sensação que tinha é a de que esse culto à guerra é um dos rituais que ainda dá suporte para ações militares desnecessárias como a do Iraque. Faz com que caras jovens, como um conhecido dos Estados Unidos, se alistem voluntariamente para ir para a guerra e se tornarem "heróis da pátria". E joguem fora de forma besta uma vida promissora. Parte estranha da cultura americana. É negra e é doce.
O namorado daquela moça do jornal, talvez ela acredite, está vivendo o sonho eterno dele, como um herói no paraíso...
... e Ele deu um sorrisinho perdido, checou o relógio, puxou Ela mais pra perto e voltou pra rir dentro dos seus sonhos de moleque... heróicos da maneira dele... e Ela gostava mais assim.
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