|
Domingo, duas da manhã, o celular toca freneticamente. Mas não há ninguém do outro lado da linha: é apenas o despertador avisando que o tão esperado 2 de março chegou. Os ingressos, comprados depois de mais de 10 horas de fila, em dezembro de 2007, finalmente vão sair da gaveta.
Levanto e vou ao outro quarto, onde dorme um dos amigos que vai me acompanhar na maratona. Nenhum de nós tem sono. Estamos animados. Afinal não é todo dia que a melhor banda de heavy metal de todos os tempos vem ao Brasil. As circunstâncias tornam a chegada mais especial: o show daquele domingo de março de 2008 promete apenas músicas clássicas, responsáveis pela fama do então quinteto inglês na década de 80. Mais especial ainda para os fãs que, como eu, não puderam ver a banda em ação nos seus áureos tempos.
O relógio marca 2 horas e 26 minutos. Começa o ritual. Cuidadosamente, desdobro e visto minha uma camiseta preta, que durante a semana fica jogada no fundo do armário enquanto uso minhas odiadas camisas sociais. A ela, se juntam a calça jeans que costumava ser escura e o velho All Star. Pego uns CDs para ouvir no caminho do Palestra Itália, estádio onde acontecerá a celebração. Lanches e salgadinhos recheiam a mochila. Estamos prontos para sair.
Partimos pelas ruas desertas. O trajeto é tranqüilo: não há muitos carros em circulação às três da matina. Logo chegamos a uma ruazinha nas redondezas do Palestra.
O relógio marca 3h40 quando nos sentamos na calçada da Rua Turiassú. Cerca de 200 pessoas começaram o ritual antes de nós. O cara logo na nossa frente, aparentando uns 20 anos, puxa conversa;
- Primeira vez no show deles?
- Não, já vi em 2004 – respondo.
- Mas esse vai ser especial. Desde que eu comecei a ouvir o som desses caras, que eu sonho com esse show. Só músicas dos primeiros CDs! Só os clássicos, cara! Nunca pensei que eu fosse ver isso com os meus próprios olhos. Vai ser foda! Muito, muito foda!
- Vai mesmo – concordo acenando com a cabeça.
A conversa segue. Ele narra sua preparação para o show: exatamente como a nossa. Não demora muito tempo, a conversa vira uma acalorada discussão sobre qual o melhor CD, qual guitarrista toca mais, qual música não pode faltar e assim por diante.
Aos poucos, o dia vai clareando. Também aos poucos, começam a chegar, de todas as ruas que levam ao portão do estádio, pessoas vestidas como nós. Todos usam camisetas pretas, jeans velhos e tênis surrados. A visão é semelhante à um formigueiro, com os seres negros se movendo pra lá e pra cá, num caos sistemático próprio da situação.
A grande maioria aparenta menos de 30. Poucos deles estiveram presentes quando a banda inglesa fez um histórico show para 300 mil pessoas no primeiro Rock In Rio em 1985.
Com o passar das horas, os diferentes grupos que formam a desordenada fila revelam rituais próprios. Alguns cantam a plenos pulmões as músicas que serão tocadas dali a sete ou oito horas. Outros gastam a garganta gritando "TRUCO" na cara de um colega de fila. Muitos fazem do álcool um companheiro de espera. Outros conversam e tentam disfarçar a tensão que as pernas inquietas e o olhar ansioso deixam escapar.
As horas se alongam até a abertura dos portões, às 17h, quando uma massa de pessoas se espreme e caminha a passos de formiga para ocupar o campo e as arquibancadas do estádio palmeirense. São 17h40 quando nos acomodamos.
Sentamos no chão, sob placas de plástico colocadas para proteger o gramado. O show deve começar em pouco mais de duas horas. Pouco para quem esperou anos. Muito para aqueles acordados desde a madrugada, que passaram o dia sob um escaldante sol de verão, sentados na calçada. O tempo se arrasta.
Às 18h, o sol começa a dar um refresco. Mas só ficamos refrescados de verdade com a chuva torrencial que começa a cair às 19h50. E pára pontualmente às 20h. Exatamente no horário marcado para que o (agora) sexteto suba ao palco.
Cinco minutos depois, as luzes se apagam e começa a celebração. O que se vê (e se ouve) daà em diante é o som vertiginoso de guitarras distorcidas, a voz lancinante e a psicodelia das luzes a se entrelaçar sobre o palco de temas egÃpcios, misturados a uma multidão que grita a plenos pulmões os 16 temas ao longo de quase duas horas de show.
Quando o dono do microfone encerra a festa com um "Thank you, good night, Brazil", um pequeno grupo forma na pista uma pirâmide humana de três "andares". No ponto mais alto, um sujeito ergue uma faixa com dizeres que resumem o sentimento daqueles 37 mil fãs, testemunhas daquele ritual: "Iron Maiden is my religion".
|
Comments