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Os nisto crentes já montavam suas macumbas: muito simples, eram feitas apenas com uma vela dentro de um buraco na areia – logo-logo, a praia toda parecia que tinha olhos amarelos, como os de um gato preto na calada da noite. Quem era de Iemanjá, preparava as oferendas (espelhinhos, flores, colares), mas as barquinhas com presentes de quinta eram devolvidas imediatamente: Iemanjá é uma senhora exigente. Por falar em barato, a cidra borbulhando nos estômagos formava os primeiros casais do ano. Também ajudava no emparelhamento a simpatia que diz que, quando der o ano novo, deve-se primeiro cumprimentar alguém do sexo oposto, senão são 365 dias de puro azar no amor.
Aninha me convidou para pular as sete ondas, mas mau presságio: o mar não estava para onda, não. Entre uma e outra, havia um intervalo enorme e eu já estava ficando pregado. Não dormíamos direito havia uns cinco dias. Toda noite era uma festa diferente: nossa ou dos vizinhos. E luau e feirinha hippie e passeio de buggie e esquibunda, tudo para ser feito de olho aberto. A primeira coisa que eu queria fazer no ano, era deitar numa cama bem grande, abrir os braços e as pernas e sentir-me despencando para dentro de mim, num adormecer daqueles tão pesados que um sono se embrulha no outro.
Pronto, Aninha, já foram quatro ondas, já é mais da metade, você não se contenta com meio ano de sorte? Mas ela disse “que isso foi é onda nenhuma, essas daí não contam, tem de ser onda que dê pra pular, essas daí só dão um tapinha no joelho”. Mas o mar não tá pra isso. Aninha, diz que ele começou o ano de bode, não tá a fim de dar sorte para ninguém. “Quê isso”, reclamou ela, “olha que lá vem vindo uma com espuma, vamos fazer assim, só conta onda que tiver espuma?”.
Quando a onda de espuma branca veio vindo, ela pulou com gosto, dobrando os joelhos de forma que nem as pontinhas dos pés tocassem o mar. Pronto, agora é só esperar a segunda – que veio meia boca, mas, mesmo assim, com espuma. Aninha fez cara de contrariada, mas teve de ceder. “Só mais cinco, Zé”.
A esta altura, alguns dos olhos da praia já estavam dormindo e parte do zum-zum-zum havia silenciado. As pessoas partiam para os bailes ou para os motéis ou para o primeiro beco, enquanto os dejetos de Iemanjá se acumulavam na areia fina.
E se a gente pegasse essas coisas? Tem coisa boa, acho que esse melão aqui nem encostou no mar. Aninha, que era frescurenta, mandou logo deixar disso: “até parece que você não tem dinheiro para passar na feira e comprar um melão ou dois ou três, você pode comprar quantos melões quiser, deixa o da Iemanjá aí”. Mas, Aninha, Iemanjá não quis, coisa feia deixar aqui para estragar. Completei: se você sair logo desse mar, ainda dá tempo de ir para casa e colocar na geladeira, amanhã a gente come, vai estar uma beleza, vamos? “Não, Zé, vamos nada, ainda faltam cinco ondas e, se não fosse para pular sete, era melhor nem ter começado, você sabe que eu acredito nessas coisas, melhor me respeitar, não quero começar o ano já brava com você”.
E se eu fizer onda com as mãos? Der uma chacoalhada na água? Você pula, tem sua sorte e pronto, acabou. Ninguém nunca disse que a onda tinha de vir lá de longe. Aninha riu: nada disso, espertalhão, só saio daqui quando pular a sétima. E ela continuou: não fique tão bravo, lá vem a terceira e, veja só, tem espuma!
Numa das barquetas devolvidas, tinha um maço de cigarros. Não sabia que Iemanjá fumava. Uma das macumbas ainda estava intacta e eu acendi um cigarro na vela. Espiando de canto de olho, Aninha riu-se de um jeito muito gostoso: “ou você vai ter muita sorte ou então vai se foder muito começando o ano fumando um cigarro de Iemanjá aceso numa macumba de praia”. Ri também. Depois abri o vinho vagabundo que também estava na barqueta (a Iemanjá do tal sujeito era uma junkie) e fui tomando no gargalo. Estava quente. Tá na cara por que Iemanjá recusou o presente.
Ei, Aninha, não quer vir brindar? “Vou nada, Zé, olha lá a quarta onda, tem cara de grande”.
Eu esperava que fosse tão grande que valesse por quatro. Mas, quanto mais se aproximava, mais perdia força: quando chegou perto de Ana já estava mansa como um beijo. Olha, amor, tá clareando, logo, logo amanhece, vamos embora? Ela nada. Até que não agüentei e adormeci: o vinho já tinha esquentado demais minha cabeça. Sonhei foi com a Iemanjá em pessoa, com seus longos cabelos negros e seu vestido azul-celeste. Doce-doce, ela me soprou o ouvido e disse: “meu presente é Aninha”. Eu me encolhi de cócegas, nem ouvi direito o que ela falou. Pedi para repetir e a Iemanjá, toda dengosa, exigiu Aninha de novo. Mas, Iemanjá, com todo o respeito, as pessoas não são uma coisa assim que se dê ou se venda ou se troque, esse favor eu vou ficar lhe devendo. Mas posso lhe trazer alguma outra coisa, que tal um vinho gelado? Posso lhe trazer um amanhã? Tiro da geladeira e venho direto para cá. Furiosa, a deusa sumiu num redemoinho azul com a mesma cara que fazem as mulheres quando a gente chega tarde em casa.
Acordei com a água gelada nos pés. Ei, Ana, já amanheceu, nem acredito que a gente tá aqui ainda, vamos embora. “Calma, Zé, você viu a onda que acabou de vir? Veio forte, cheia de espuma, pulei bem alto, uma coisa abençoada. Agora só falta mais uma! Mais uma e a gente vai pra casa e eu te recompenso. Mais uma e a gente tem sorte o ano inteiro. Se a última veio forte assim, logo, logo vem outra, espera só mais um tiquinho”.
Recompensa, é? Recompensa como? “Como você quiser”, suspirou Aninha, que tentou soar lasciva, mas tinha um olho em mim e outro no mar que, todavia, continuava calmo, quase um lago. Piscininha de criança. E o sol já comendo alto e as pessoas chegando de guarda-sol. Decerto acharam que éramos dois bêbados ou drogados ou mendigos. Eu dormindo com a garrafa de vinho do lado e ela no mar com cara de doida.
Feliz ano novo, meu velho, eu disse ao barrigudo com uma revistinha de palavras cruzadas. Estranhamente simpático, ele perguntou o que é que eu fazia ali de roupa. “Bebeu todas, foi?” Não, meu senhor, estou é esperando a minha namorada. Ela tá aqui desde a meia-noite de ontem querendo pular as sete ondas. O velho soltou uma gargalhada que fez vibrar visivelmente o seu pomo-de-adão: você tá ouvindo o moço, Claudete? Essa juventude me mata! Não entendi qual era a do velhinho. Lasquei logo: que foi, homem? E ele lançou de volta: “rapaz, rapaz, você é hilário, estamos em setembro! E eu te pago um picolé se você me mostrar a sua namorada”.
* O conteúdo deste artigo é puramente ficcional e não tem relação com fatos reais
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