| Foto: Ana Elisa Ribeiro |
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Sacode esse tênis, menino!
Estava Bruno Camargo sentado na sala com seu avô. Lá, eles brincavam de Lego, aquele brinquedo que permite liberar a imaginação, e faziam construções mirabolantes com as peçinhas. Seria um sonho de ser um futuro engenheiro? Talvez. Mas isso não vem ao caso.
Seu avô, como quase todos, adora contar histórias e estórinhas. Começou a contar uma delas para ele e os tios que ali estavam.
“Certa vez, um jovem estava se preparando para ir jogar bola. Pegou o tênis, sentou na cama e foi calçá-lo. Bastou alguns segundo para o grito – Ahhhhhhhh!!! O menino mais que depressa tirou o tênis e percebeu que o pé estava em um processo de inchaço. Dentro do calçado tinha, nada mais nada menos, que uma aranha. Por causa disso que o pé começou a inchar”, assim narrou o avô e conta até hoje.
A partir dessa tarde com a família, Bruno, com apenas oito anos, deu início a mais um ritual: o de sacudir qualquer calçado antes de vesti-lo. A princípio, ele socava o tênis, examinava até ter certeza de que ali nada havia. O tempo passou, ele cresceu e se tranquilizou. Mas fiscalizar o tênis antes de calçá-lo é, até hoje, aos 23 anos, um ritual.
Tanto cuidado e atenção são válido sim. Longos anos depois, aos 19 anos, Bruno teve uma surpresinha ao sacudir o tênis. Um bichinho diante do qual, se fosse uma mulher, certamente não teria a mesma reação. Qual é o bicho que as mulheres odeiam? Isso mesmo, saiu uma barata do tênis do Bruno.
Então ele logo lembrou a conversa que teve com seu avô, quando ainda era baixinho e brincava de ser engenheiro no sofá da sala. Na mente dele, veio aquele agradecimento e disse rindo: “sacode esse tênis, menino”!!
Ainda bem que eu sacudi, imagina se eu tivesse esmagado a baratinha? Uhn...
Um prato para arroz, outro para feijão.
Aonde come, Márcia é vista com certa anormalidade. Culpa de um ritual que lhe persegue há anos e, muitas vezes, a deixa constrangida. Nos restaurantes, bares, cafés...essa mania persegue Márcia em todos os lugares. Clientes, garçons, amigos... Muitos olham torto e imaginam: “qual é o problema dessa moça”???
Márcia tem esse costume desde pequena. Seus pais serviam sua comida num prato cheio de divisórias. Nesse cantinho vai o arroz, no outro o feijão, no menor o purê de batata, depois a carne, salada...
Hoje, ela sofre com esse ritual um tanto raro e desconfortável. Afinal, normalmente, nos restaurantes não há pratos com divisórias e o que resta a fazer é pegar vários pratos. Porém, ela dificilmente tem tamanha paciência e escolhe não comer tantas misturas. “Eu prefiro fazer um prato com arroz, um pratinho com carnes e outro com saladas”, afirma.
Ela jura que já tentou acabar de vez com esse ritual de comer os alimentos separados, mas não teve sucesso. Ela não consegue ver o arroz molhado, com caldo, misturado com o feijão. O máximo que já conseguiu foi por a carne e o alface num mesmo prato.
O que Márcia não quer é alimentar esse ritual que herdou dos pais para seus filhos.
Deus no céu, na terra e no mar E mais umas férias... Janeiro, sol, calor! Ubatuba - para os mais íntimos, Ubachuva - não pode ficar de fora. Mais uma vez, aquela família desce a serra com o carro lotado. É ventilador, comida, travesseiros, edredom, rádio, prancha...
Existe aquele velho ditado “filho de peixe, peixinho é” e eu nasci assim, adoradora do mar, das enormes ondas... Criança confiante, achando que o mar não é tão forte assim, olhei para ele e, com um enorme sorriso no rosto, disse: “cheguei, me aguarde”!!!
Corríamos com a prancha na mão, eu e meus irmãos. “Vamos lá, quem for pior ganha um caldo”, dizia meu irmão. E eu adorava tudo aquilo! Mesmo na pressa de alcançar o mar, nunca esquecíamos o sinal da cruz. Pois é, assim ensinam meus pais. Antes de entrar no mar, faça o sinal da cruz, invoque o Senhor e peça a Ele que lhe guie, que esteja sempre à tua frente, atrás e dos lados e, ao sair, agradeça-O. E assim fazíamos, toda vez que entrávamos e que saíamos do mar.
Mas, certo dia o ele nos desafiou. Era correnteza, onda passando por cima, desespero de alguns... Eu, meus irmãos e mais três, estávamos sendo levados para o fundo. A princípio, meus pais assinalavam bravos da areia, achando que estávamos indo para o fundo por vontade própria. É que sempre fomos muito ousados no mar. Mas, Quando perceberam que não tínhamos controle, correram atrás de um salva-vidas.
Nós nos ajudamos. Meu irmão carregou uma menina que afogava e nada de salva-vida para nos socorrer. Meus pais já estavam entrando no mar quando, depois de muito sufoco, chegamos ao raso e respiramos aliviados. Quando chegamos à areia, só queríamos falar e falar e falar como tudo aconteceu.
No dia seguinte, o último na praia, lá estávamos os três pimpolhos fazendo o sinal da cruz para entrar no mar. Foi quando uma enorme movimentação nos chamou atenção. Fomos todos ao redor conferir o que acontecera dentro daquele círculo de pessoas que se formava. Adivinha o que era? Um corpo ensangüentado no chão. Um homem morto, com a cabeça toda ferida, fora encontrado atrás das rochas. Logo, um tanto de lembranças vieram à minha mente. O sentimento de pena vinha junto com o alívio.
Não tinha mais clima para ficar ali. Fomos embora. No caminho, conversamos sobre o passeio, fizemos o sinal da cruz e agradecemos pela vida. Essas férias não nos traumatizou, mas nos deixou mais conscientes da força do mar.
Passado um ano, aquela família desce a serra de novo, com o carro lotado de comida, lençóis, travesseiros, ventilador, prancha.... Ao chegar, eu e meus irmãos, os três pimpolhos, corremos em direção ao mar com a prancha na mão. Ah, claro! Sem esquecer o sinal da cruz.
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Comments
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