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Especiais - Rituais
Seg, 15 de Dezembro de 2008 18:58
Foto: Rafael Craice
omolu_rafaelcraice_editado

O feiticeiro, a jornalista e suas magias

"O espiritismo é muito bonito e bom, mas na boca de quem não sabe é a pior religião", Vicente Pinto Manhães

Seu Vicente e sua cadeira de rodas dão voltas na sacada, sob o sol. Começo a preparar o terreno meia-hora antes - alí, meu ritual narrativo. Separo a conversa que estávamos tendo daquela que iniciaríamos: uma entrevista com um tema definido. Ele deve ter percebido quando travesti de jornalista a sua neta; eu, contudo, só notei a diferença quando me vi enredada pelo fio do microfone.

Diante da câmera montada, Seu Vicente decide tirar a touca e logo pergunta se está aparecendo bonito na tela do aparelho. Respondo que sim, como se estivesse tranqüilizando-o a entrar sem medo na minha própria casa de magia. Pouco tempo depois, introduzo perguntas para formalizar a entrevista, mas as faço no português não-formal que usamos em família; acho que tenho medo de em algum momento soar como uma completa estranha.

Ao invés de "Seu Vicente", chamo-o de "Vô" e peço que ele explique porque é religioso. Nasceu católico, mas toda a família era umbandista. Vicente Pinto Manhães, de sua parte, deixou pais e irmãos em sua religião e entrou para o Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento – a mais antiga ordem esotérica do Brasil. Casado e criando as filhas, o vô, conta, ouviu a indicação de seu mestre espiritual e foi fazer a cabeça no santo: seguiu para o Candomblé.

"O senhor mistura rituais de todas essas tradições?". O vô resmunga alguma coisa que não entendo e diz que, se fosse falar de todos os rituais que sabe, eu perderia três dias entrevistando. Ele começa a enumerar os rituais de sua religião, indicando também os cantos que acompanham eles.

"Ô seu olorum, ossu mamãe olorum panté, ossu mamãe, oboa..." é para matança de pombo. "Olorum. Você sabe o que é olorum? Olorum é sua cabeça, seu cérebro. Se você chegar em um lugar um dia e te oferecer pombo pra você comer, você não coma. Galinha d'angola você não come, pato você não coma e o pombo você também não come". Isso, segundo o vô, porque o pombo não dá "uma só gota" de egé, que é sangue. "Se comer, é capaz de ficar doente e não sarar mais", completa.

Vinte e um anos de convivência e essa é a primeira vez que sistematizo perguntas sobre as crenças dele. Não por falta de curiosidade, mas talvez por ter me acostumado a ouvir, em doses homeopáticas, várias pequenas lições do babalorixá do nosso quintal. Bençãos, rezas, trabalhos, oferendas – de tanto ver acontecer, sempre achei que entendia o sentido de tudo isso.

Azeite de dendê com cheiro de memória aparece quando começa a explicação sobre a comida de cada santo. "Ogum pega cará. Sabe o que é cará? Cará no afro-culto brasileiro se chama inhame. Em primeiro lugar, vai dendê, batiza a comida com sal; um pouquinho, só pra batizar. Aí você cobre aquilo com mel. É a comida do Ogum, né? Bixo de quatro pé todos ele leva também".

Em azul, Iemanjá aparece como lembrança entre estátuas da casa de santo. "Em primeiro lugar, ela pega peixe, ela come canjica", explica o vô sobre os gostos da rainha do mar. "Iemanjá ela é mãe de tudo quanto é orixá. Até do diabo, ela é mãe. O primeiro filho dela foi Seu Lucifer, o diabo mais velho dos inferno que a turma combate tanto, né? Qualquer ritual que seja, de festa, de que seja, tem que ter uma Iemanjá".

"Aí eu vorto pro Oxóssi. Oxóssi é o terceiro filho da Iemanjá. Primeiro foi Exu, segundo é Ogum, terceiro é Oxóssi,. Oxóssi come milho cozido, fruta de quase toda a qualidade". "Oxóssi é orixá de quê?", pergunto ao especialista. "Oxóssi? É o deus das floresta, ele é o deus das matas-virgens, ele é o deus da folha, ele é o deus do remédio". Meu vô conta que, para arrancar galhos e folhas na mata, é preciso deixar um maço de velas para Oxóssi: "Não é pra fazer que nem seu pai, não, que fica 'rancando' tudo que é mato", diz ele, cutucando o genro católico.

Na mesma toada, a conversa continua: "Iansã é a dona do acarajé"; "Xangô come tudo quanto é carne gorda"; "Oxum não come dendê, come azeite bom"; "Logum você só enfeita aquele feijão fradinho com milho de galinha debulhado"; "Aí entra Oxumaré, que é Nossa Senhora do Carmo. Você já escutou falar que existe uma santa que seis meses é uma santa e seis meses é uma cobra? É Oxumaré".

Digo que não fazia idéia daquilo, mas ele não dá mais explicações e segue falando por que é que, como os homens, os santos precisam de um "juntó", uma companheira ou companheiro. Daqui em diante, minhas perguntas quase perdem seu feitiço. Mais um passo, e o vô está mergulhado em outro ritual – talvez seu favorito: delinear as características da pessoa com quem conversa para aconselhá-la.

"Você é filha de São Camilo de Lellis. Quem é São Camilo de Lellis? É aquele que está com Jesus na cruz. Aquele ali é Oxalufã, Oxalá Velho. Ele está pregando o filho dele ali na cruz para consolar as dor do prego". Balanço a cabeça em concordância e tento não parecer frustrada por ter falhado em fazê-lo participar do meu ritual.

"Toda riqueza que tem na terra é do Aquário. O petróleo é de Aquário. Mas o Aquário é 150 anos na frente de todos signos. Ele foi o primeiro signo a ser notado. Você sabe quem é o pai de Aquário? Adão". Aqui a entrevista se derrama como as miçangas de um pote a cair no chão. Resmungo no interior de minha cabeça, enquanto ouço sobre Naná, cebolas-roxas, Pomba Gira, Omolu.

"Pra Obaluayê, que chama também Omolu, estoura bastante pipoca. Ele também come na gamela. Gamela é aquela vasilha de madeira. Dentro do afro-culto brasileiro não pode falar pipoca. Tem que falar boborô ou malufa". Bororô me tira do transe pessimista e volto a perguntar – retornando ao ritual. "Que língua é essa, vô?"; a resposta era conhecida antes mesmo da interrogação: "É iorubá! É língua iorubá! Eu tô falando em iorubá".

Ele não pára: "Agora falta a comida do Tempo. Aí você vai dar comida para o Tempo. Nenhum santo pega abacaxi, mas o Tempo pega abacaxi". Segundo o avô, o Tempo, que no Candomblé também é um orixá, pega todo o tipo de comida: "O Tempo come de tudo".

Por algum motivo, sinto vontade de terminar a conversa aqui – afinal, é tão confortável deixar o tempo engolir meu ritual infantil e cheio de palavras, urgências, novidades. Anuncio o fim da fita. Fecho os olhos por dentro e, de olhos abertos, fixados no sorriso daquele velho preto, mergulho em um circo particular de imagens. Iansã e sua franja, gritos, cores, pipoca, arruda, uma santa que não tinha a orelha, doce, agogôs, mel e um balde de velas coloridas: estou sentada no colo de nossa história.

Esta entrevista foi realizada no dia 20 de novembro de 2008. Dia em que nossa casa comeu doce de abóbora com coco e celebrou, mastigando em silêncio, a Consciência Negra.

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avatar Abry
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avatar ed hardy
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Digo que não fazia idéia daquilo, mas ele não dá mais explicações e segue falando por que é que, como os homens, os santos precisam de um "juntó", uma companheira ou companheiro. Daqui em diante, minhas perguntas quase perdem seu feitiço. Mais um passo, e o vô está mergulhado em outro ritual – talvez seu favorito: delinear as características da pessoa com quem conversa para aconselhá-la.
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avatar Famous Quotes
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uma companheira ou companheiro. Daqui em diante, minhas perguntas quase perdem seu feitiço. Mais um passo, e o vô está mergulhado em outro ritual – talvez seu favorito: delinear as características da pessoa com quem conversa para aconselhá-la.
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avatar Insurance
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deixar um maço de velas para Oxóssi: "Não é pra fazer que nem seu pai, não, que fica 'rancando' tudo que é mato", diz ele, cutucando o genro católico.
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avatar tempurpedic
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Última atualização ( Qui, 18 de Dezembro de 2008 14:58 )