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Já parou pra pensar quantas vezes você se viu fazendo parte de uma roda? Rodas de conversa, de jogos, estudos, de samba, capoeira ou até mesmo uma quadrilha de festa junina. Antes da invenção do objeto “roda”, o círculo já era a forma mais comum de reunião entre os homens. Até hoje, boa parte das culturas tem tradições que envolvem rodas de dança, oração ou discussão. É um hábito tão comum que parece natural do ser humano.
Não por acaso. No círculo não há hierarquia, todos os pontos estão a mesma distância do centro e todos seus componentes podem observar uns aos outros, o que facilita a integração e a comunicação. Além disso, passa a idéia de fluxo continuo, por não ter começo nem fim. Por essas propriedades, a roda faz parte de concepções e teorias de cultura e educação – como os “Circulos de Cultura” do educador brasileiro Paulo Freire, em que a reunião em roda é parte central desse método de alfabetização.
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Mais que forma, o círculo é um símbolo intimamente relacionado à maneira como vemos o mundo. Representa a dinâmica da natureza: o rítmo das estações do ano, das plantações, os movimentos de rotação e translação da Terra e dos outros astros, nossos batimentos cardíacos e respiração, as fases da Lua, o dia e a noite e o próprio ciclo da vida.
Rodopios A abundante simbologia do círculo inspirou a criação de dois movimentos de dança na década de 1960, que se propagam pelo mundo até hoje. Originados em meio a um clima de contestação do modo de vida moderno, ambos buscam um resgate da consciência do homem como parte da natureza e das vivências comunitárias primitivas, que têm como centro rituais de dança em roda.
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Um deles é o movimento das “Danças Circulares Sagradas”, criado pelo bailarino e coreógrafo alemão Bernhard Wosien. Ele pesquisou antigas tradições de roda da Europa Oriental e adaptou suas coreografias para que fossem facilmente assimiladas por pessoas de outras culturas. Na década de 1970, essas danças foram levadas à comunidade alternativa de Findhorn, na Escócia, que passou a ser um centro de disseminação do movimento.
Já as “Danças da Paz Universal” foram criadas pelo mestre sufi – do sufismo, uma corrente mística do Islã - Murshid Samuel Lewis nos Estados Unidos. São danças de roda compostas por movimentos e gestos simples, aliados ao canto de frases expressivas de diferentes tradições espirituais do mundo que evocam o ideal universal de paz e fraternidade entre os homens. Foram introduzidas, inicialmente, junto a jovens hippies, como uma maneira de chegar ao “êxtase” negando as drogas.
Devido a seus objetivos comuns, os dois tipos de dança se espalharam concomitantemente e costumam ser praticados juntos. No Brasil já existem “rodas da paz” em diversos estados.
Como, onde e por que dançar? “A dança é terapêutica e pode ser trabalhada em todos os setores”, explica Arlenice de Oliveira, do grupo Semeia Dança, que trabalha com as danças circulares e da paz universal na cidade de São Paulo desde 2002. “O Semeia Dança dá cursos de formação para profissionais de saúde, que usam a dança para iniciar sessões de terapia em grupo; para empresas, promovendo harmonização de equipe; festas familiares, congressos e, principalmente, na área da educação”, conta. Por meio de uma parceria com a prefeitura de Itu, o grupo capacitou todos os professores da rede municipal para que possam usar as danças em roda com finalidades pedagógicas; “obtivemos uma aceitação de 95% dos docentes”, comemora Arlenice.
Mas o “habitat natural” das rodas são os parques e praças da cidade, onde grupos se reúnem mensal ou semanalmente. São atividades gratuitas comandadas por grupos de dança voluntariamente, “não há requisito algum para participar, a proposta da roda é ser uma atividade inclusiva”, diz Arlenice.
Este ano, o número de parques que recebem as rodas aumentou muito, devido a um projeto da Universidade Aberta do Meio Ambiente e da Cultura de Paz (Umapaz) da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente. “Ainda estamos na fase experimental, mas as perspectivas são de que todas as rodas de dança da cidade sejam subsidiadas pela Umapaz”, explica a dançarina do Semeia Dança.
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