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Quarta-feira, depois do almoço, passava pela praça central da ECA. Não é raro encontrar tipos peculiares por ali, mas um grupo de senhores me chamou a atenção. Aqueles três rostos não me eram estranhos, mas algo neles parecia ter mudado. Fui me aproximando e ouvindo o papo cabeça:
- Bicho, a televisão tá acabando com a metafísica do planeta. Outro dia eu ligo aquele treco e tá passando uma música minha, quer dizer, nem sei mais se posso chamar de minha, porque agora é um coral que canta! Um arranjo totalmente distorcido... – disse o senhor barbudo.
- Isso não é nada, o pior é quando uns americanos sem o menor senso de bossa decidem regravar um dos maiores sucessos do Jorge Ben, que eu mesma tinha no meu repertório! Que absurdo! – retrucou a senhora baixinha.
- Ah, não esquenta, man... Minhas músicas tocam até em comercial de carro... Mas eu acho legal, mó vibração, man... – comenta o senhor atrás da nuvem de fumaça.
Foi quando me toquei: eu estava diante de Raul Seixas, Elis Regina e Bob Marley! Aparentavam ter lá pelos 60 anos, mas continuavam com os mesmos trejeitos da juventude. Minha vontade era tocá-los pra ver se eram mesmo de verdade, mas fiquei com medo de ser apenas uma alucinação e decidi ficar ali só observando aquele encontro improvável.
- Vibração, bicho, eram minhas letras com Dom Paulo Coelho. Agora ele nem pensa na sociedade alternativa, só escreve best-seller e faz pose na Academia Brasileira de Letras, o que a fama não faz com as pessoas...
- Qua-quará-quá-quá! Fama... fama! Ela que nos levou pro fundo do baú também!
- O problema não é a fama, man, é o que vocês usavam pra lidar com ela. Álcool e drogas só alteram a consciência. Todos deveriam usar o que abre a mente, sabe, traz emancipação pra humanidade, man... O mundo vai ficar bem mais tranquilo quando os poderosos chefões liberarem o uso da maconha!
- É, bicho, nós podemos fazer o que quisermos, porque é tudo da lei! E tá vindo aí a Era de Aquário! O trem das sete tá chegando, fiquem espertos!
- Eu vou pegar o trem azul, mas o ser humano ainda tá na maior fissura porque tá cada vez mais down o high society!
- Aaah, high society tão os seus filhos! O Ziggy só toca nos Estados Unidos e a Maria Rita nos teatros chiques do Brasil. Enquanto isso nas festas da USP só se ouve “toca Rauuuul”! - mandou Seu Seixas.
- Ei, man, você fica aí se fazendo de maluco beleza, mas todo mundo sabe que seu sonho era ser que nem o Elvis Presley! – provocou Bob, ao que Raul fez cara de enfezado.
- Raulzito, tu não precisa ficar assim... Olha, lembra daquela música “Areia da Ampulheta” que você fez pra mim? Então, eu só não gravei porque não tive tempo, mas tava pensando em colocar no meu próximo disco, sério mesmo!
- Poxa, Elis, que honra! Sabe, eu sou a areia da ampulheta, o vagabundo conformado, o que não sabe qual o lado... – cantarola Raul.
- Que lindo! Vocês são brancos, mas são rasta como eu... Vibrações do homem rasta, yeah! Positivas! Um só amor! Um só coração! Vamos seguir juntos para ficarmos bem!
E justo naquela hora, ao som de Bob ao vivo, meu celular decide tocar “Umbrella” da Rihanna – que mico! -, o toque do meu chefe, que ligou pra lembrar que eu já estava uma hora atrasado. Quando desliguei e me voltei pro banco onde eles estavam, vi apenas uma nuvem de fumaça que já se desfazia com o vento.
  
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