|
"Fomos informados de que você andou propagando a falsa notícia da Guerra Nipo-Americana, dizendo que o Japão fora derrotado e anda falando mal e desrespeitando a família Imperial. Nós os castigaremos. Iremos buscar a sua vida. Lave seu pescoço para depois não deixar a sujeira que lhe envergonha".
A mensagem era objetiva e curta o suficiente para caber em um pequeno bilhete apreendido em 1946 pela polícia de Tupã, no interior de São Paulo. Como essa, outras dezenas de notas de alerta foram enviadas, entre 1945 e 1947, a imigrantes japoneses radicados no Brasil. Acreditar na derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial era assinar a própria sentença de morte. E os autores das mensagens eram os próprios japoneses.

Há 64 anos, os imigrantes viram emergir uma guerra particular entre os que não aceitavam a derrota do imperador Hirohito, os vitoristas (kachigumis), e a minoria que conhecia a verdade, os derrotistas (makegumis). Mais de 20 derrotistas foram mortos pelos Tokkotai, radicais da Liga do Caminho dos Súditos - a Shindo Renmei. Fundada oficialmente em 1945 por ex-militares japoneses, a liga acreditava no sucesso do Japão na guerra. O pesquisador da história japonesa no Brasil, Sussumu Miyao, esclarece que os vitoristas defendiam a honra do povo japonês e preservavam a imagem do imperador. "Eles pensavam: 'se o Japão perdeu a guerra, o Imperador teria de se suicidar, mas ele estava vivo. Então, o Japão não perdeu a guerra".
Em algum lugar da América do Sul O conflito na comunidade nipônica foi a materialização de uma crise de identidade que já se arrastava desde meados da década de 1930. A partir de 1938, uma série de leis brasileiras colocou em cheque a cultura japonesa ao proibir o ensino em japonês, a formação de associações, circulação de jornais em língua japonesa e ao obrigar o uso de salvo conduto para se locomover entre cidades.
Muitos imigrantes vieram ao Brasil para fazer dinheiro e voltar a sua terra natal, mas se viram encurralados entre um governo cuja língua não entendiam e as associações clandestinas recém-fundadas por compatriotas. "Elas surgiram para manter o chamado 'yamato damashi', o espírito japonês", explica o historiador Rogério Dezem.
A Shindo era a mais organizada das associações e reunia cerca de 120 mil dos 200 mil imigrantes e descendentes no Brasil. Ela tinha filiais nas principais cidades em que os imigrantes se concentravam, como Bastos, Valparaíso, Tupã e Marília. "Deste total, menos de 5% está associado a essa luta fratricida", explica Dezem.
O Japão perdeu a Guerra Os ideais da Shindo se espalharam rapidamente por causa da propaganda. Emissários eram enviados da sede, na capital, ao interior, com o intuito de aliciar jovens para participar da organização. Em alguns casos, mesmo sem acreditar no que era dito, homens e mulheres se comprometiam com o ideais, motivados pelo senso de comunidade. Em 1946, após a prisão de 81 membros - 14 deles ligados ao grupo mais extremista -, e mais de 20 assassinatos e 170 feridos, a Shindo foi desestruturada.
“Pouco a pouco, os vitoristas acreditavam que seu país havia perdido. Vinham do Japão cartas de parentes contando a verdade, mas (este processo) demorava. Levou quase dez anos para que todos se dessem conta de que a derrota era fato”, lembra Sussumu Miyao. A história atravessou as décadas e, mesmo após 64 anos, a Shindo Renmei ainda é tema cercado por silêncio, dor e lacunas.
Formigas

Com um nome peculiar e a intenção de não deixar a história da imigração japonesa cair no esquecimento, o curta-metragem Formigas surge para contar um episódio triste dos imigrantes nipônicos de forma simples e efetiva: na lógica de uma criança.
O curta Formigas gira em torno de uma família imigrante japonesa na década de 1940, no pós-guerra. As pequenas irmãs Mioko e Emi vivem em uma fazenda no interior paulista e temem as formigas amarelas gigantes que, à noite, podiam levar seu pai embora. A narrativa foi inventada pelo patriarca para não contar às crianças qual era a real ameaça: os Tokkotai, grupo da Shindo Renmei responsável pela morte de derrotistas e que, apesar de agir na calada da noite, utilizava capas amarelas.
Na tentativa de proteger o pai, a filha mais velha tenta por um fim nas formigas, mas sua irmã a convence de que o melhor jeito de resolver o problema é conversar com os insetos e pedir educadamente para que não levem seu pai embora. Formigas não foca na ação da Shindo ou de como era a repressão da época, mas procura ambientar o que era ser japonês e viver sob ameaça de seus compatriotas no pós-guerra.
O filme é fruto de uma parceria da Gullane Filmes e da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e é dirigido por Caroline Fioratti. A neta de japoneses é responsável também pelo roteiro, que ganhou o Prêmio Estímulo de Curta-Metragem em 2007. Caroline baseou-se nas histórias que sua avó, já falecida, contava da invasão dos insetos gigantes e percebeu a ligação que havia com a Shindo Renmei.
"Há um público que conhece a história e vai se identificar. Mas há também quem não conhece e vai se interessar porque não sabia [da história da Shindo] e, mais do que isso, vai se emocionar porque todo mundo entende de amor familiar, entende o que é um pai protegendo filhas e filhas protegendo os pais", acredita. O curta-metragem ainda está sendo exibido em festivais pelo Estado, sem previsão da próxima exibição.
De fala contida A luta fratricida não terminou com o fim da Shindo Renmei. Sussumu Miyao, pesquisador da história japonesa no Brasil, conta que, na época, muitos japoneses venderam a seus compatriotas terras que teriam sido conquistadas com a vitória do Japão na Segunda Guerra Mundial.
“Todo mundo queria voltar ao Japão. Corria entre os imigrantes a notícia de que havia chegado um navio japonês para buscar quem quisesse ir para casa. Muitos foram para Santos esperar o navio, que não chegou”, lembra. “Veio outra notícia de que era o porto errado e que o navio chegaria no Rio de Janeiro. Os imigrantes foram para lá, mas o navio, novamente, nunca chegou. Perceberam que era tudo mentira e voltaram para São Paulo".
O fotógrafo japonês Seiro Takayama, 91 anos, lembra que os problemas não vinham somente dos compatriotas. Ele conta que a tolerância da polícia política com os imigrantes era pequena. Para evitar problemas, Takayama sempre carregava consigo uma lata onde escondia diversos papéis, inclusive o salvo conduto sem o qual não podia transitar pelo país. Mesmo assim, ele chegou a ser preso por uma noite, "por ser japonês".
A suspeita levantada contra os imigrantes depois que a história da Shindo Renmei veio à tona também contribuiu para que a repressão aumentasse. Uma fonte, que preferiu não se identificar, conta que seu irmão foi preso quando a polícia descobriu que o dono do local onde ele trabalhava pertencia à Shindo. O fato aconteceu na cidade de Penápolis, em 1946.
A fonte conta ainda que, no mesmo ano, um tokkotai, membro mais radical da Shindo Renmei, foi morto pela polícia em Penápolis. "Havia dois tokkotai na cidade. Eles passavam o dia em um sítio e à noite saíam para espreitar os derrotistas (japoneses que sabiam da derrota de seu país na guerra)", lembra. "Um dia, o delegado reuniu um pelotão e foram ao sítio, todos armados. Quando chegaram, um tokkotai conseguiu fugir. O outro tentou se esconder no cafezal, mas foi encontrado e executado ali mesmo".
Dez anos após o término da guerra, ainda existiam tensões, e muitos japoneses insistiam na posição "vitorista". Sussumu Miyao conta que, em 1953, estava no interior de São Paulo contando aos seus conterrâneos como tinha sido a derrota japonesa. "Naquele tempo ainda havia bastante vitoristas. Um deles veio até mim, me levou a um canto e disse 'você não pode falar alto sobre o imperador, senão...' e fez sinal de uma faca sendo enfiada na minha barriga", conta. "Mas naquela época, os vitoristas já não falavam mais tão alto".
|
Comments