| A (nova) flor da idade |
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| Edições - Quando eu tiver 64 |
| Escrito por Juliana Varella |
| Sex, 06 de Novembro de 2009 20:49 |
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No auge da sua juventude, Paul McCartney arriscou um palpite: aos 64 estaria perdendo os cabelos, cuidando da casa e aparando a grama, enquanto sua mulher tricotaria ao pé da lareira. Um futuro idílico, romântico e muito, mas muito monótono, pelo menos para os atuais sexagenários. Matildes do Amaral tem 64 anos e passa longe do estereótipo. Ela é goiana, vaidosa e tem dois filhos. Trabalha todos os dias na sua clínica especializada em estrabismo, como sempre fez – aposentou-se apenas da carreira acadêmica, na Universidade Federal de Goiás – e mantém sua rotina infalível de exercícios: academia, caminhada e dança. Foi dançando, aliás, que Matildes conheceu seu atual namorado. Estão juntos há um ano e quatro meses, moram em casas separadas e prezam pela liberdade. “Não deixo de sair à noite nem de falar com meus amigos. Vira e mexe tem um me ligando”, conta, entre risadas. O relacionamento já deu o que falar na família da goiana, porque o namorado, para desespero de uns e orgulho de outros, tem 38 anos. A história não é nova: já nos anos 70, Collins Higgins chocou os leitores com o romance entre Maude e Harold em “Ensiname a viver” – ela com 79 anos; ele com 20. No livro, como na vida real, quem dá um show de energia é a mulher, mesmo sendo mais velha. No caso de Matildes, a diferença não é tão marcante, mas já foge dos padrões: “Sou feliz com ele, mas fico constrangida em conhecer sua família. Se fosse um filho meu, eu sei que teria preconceito”, admite, conformada. “Acho que é cultural... não sabemos aceitar a velhice. Os jovens, por exemplo, têm rejeição descarada pelos idosos. Isso qualquer idoso sabe”. A sensação não é só dela. De acordo com uma pesquisa de pós-graduação da PUC-SP, feita por Sheila Aparecida de Oliveira, os jovens tendem a associar velhice à doença e à fragilidade, mesmo conhecendo idosos saudáveis. Mas basta comparar alguns resultados para perceber a injustiça. No ranking de maratonistas da assessoria esportiva YesCom, o melhor corredor na categoria de 60 a 64 anos fica apenas alguns segundos atrás do melhor corredor de 20 a 24. Já entre as mulheres, a primeira colocada na faixa dos 60 anos “Na prática, um dos fatores que marca a diferença entre um idoso e um adulto é a aposentadoria”, explica Sheila. “Ela é como um rito de passagem, é o momento em que a pessoa perde sua independência financeira e percebe seu envelhecimento”. Para Matildes, porém, esse momento ainda não chegou: “não me sinto idosa. Quando penso que fico dançando das dez da noite até as quatro da manhã, não parece justo pegar a fila preferencial num banco. É um direito, às vezes eu aproveito, mas não acho certo”. No Brasil, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, em 2007, cerca de 6 milhões de brasileiros eram idosos – ou seja, já tinham passado dos 60. Mas dificilmente eram idosos como imaginara McCartney: no mesmo ano, quase 30% deles ainda trabalhavam, incluindo aposentados, e muitos certamente praticavam atividades físicas e até estudavam. Como até a Organização Mundial da Saúde reconhece, a capacidade funcional e a independência são importantíssimas para a saúde física e mental da população. Por isso, só mesmo a ficção para encontrar sessentões pacatos em suas casas de campo. |
| Última atualização ( Sex, 06 de Novembro de 2009 20:54 ) |
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