| Do clima de oba-oba ao silêncio sepulcral |
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| Edições - Quando eu tiver 64 |
| Escrito por Cristiane Sinatura, Patrícia Golini e Pedro Maino |
| Sáb, 07 de Novembro de 2009 17:20 |
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José Alberto Cavedagne tinha 18 anos e estava lá, no fatídico Maracanazo.de 1950. Ele assistiu ao clima de oba-oba ser esmagado pelo silêncio sepulcral que tomou conta da torcida brasileira, logo após o segundo gol do Uruguai. Hoje, Cavedagne mora em Miami e, de lá, falou ao Claro! um pouco sobre um dos dias mais tristes do futebol brasileiro e também sobre diferenças que podem ter se desenvolvido no esporte, ao longo de 64 anos – o tempo exato entre as duas Copas do Mundo em terras brasileiras.
Claro!: Além da final, o famoso “Maracanazo”, o senhor assistiu no estádio a mais algum jogo da Copa de 1950?
José Alberto Cavedagne: Comecei por Belo Horizonte, de onde já estava de mudança para o Rio, assistindo à maior "zebra" da Copa: Estados Unidos 1 x 0 Inglaterra. No Maracanã, assisti a três jogos: Brasil x Suécia (se não me falha a Memória), Brasil x Espanha (goleada de 6 a 1) e a final.
Claro!: Que lembranças o senhor tem dessa partida final? Pode nos fazer um relato desse dia? E que lembranças tem da Copa de 1950 em geral?
José Alberto: Foi um longo dia! Saí de casa em companhia de alguns familiares e amigos às nove da manhã. Parecia que íamos a um piquenique, levando uma cesta com salgados para o nosso lanche, feito no capricho por minha mãe, uma especialista no ramo. E parece que esse foi o melhor da festa! Tínhamos a certeza de uma vitória, bastava um empate para faturar o título. A primeira chance veio quando abrimos o marcador com Friaça; passaporte carimbado. Sofremos o empate e tudo parecia bem, mas aí veio a "desgraça" final: gol do Gighia e o "Maracanazo" realizado.
Claro!: Como era o clima no estádio no dia da final? Qual sentimento predominava no início do jogo e qual sentimento restou no final? Relatos da época descrevem que tanto a seleção brasileira como a torcida, certas da vitória, adotaram um certo ar de “superioridade”, de “já ganhamos”. Depois do segundo gol uruguaio, um silêncio preocupado e decepcionado teria tomado conta da arquibancada brasileira. Isso realmente aconteceu?
José Alberto: O clima era realmente do "já ganhou". Muita animação, apoio total e duvido que alguém estivesse esperando o resultado adverso, mas depois do gol fatídico o Maracanã virou uma capela de velório. Silêncio total e muito choro após a derrota consumada. Como se via "gente chorando...
Claro!: Para o senhor, o “culpado” pela derrota foi realmente o goleiro Barbosa?
José Alberto: Uns acusam o Barbosa, outros o Bigode e ambos se acusaram mutuamente. Na minha opinião, e isto é pessoal, eu divido a culpa entre os dois. O Bigode deixou que o Ghighia avançasse sem a devida marcação e o chute foi bem defensável.
Claro!: Como o senhor vê o futebol em 1950 em relação ao atual?
José Alberto: Tudo na vida evolui e o futebol praticado em 1950 nada tem a ver com o que se pratica hoje. Tínhamos craques respeiáaveis, como Zizinho, Ademir Menezes, Danilo e muitos mais. O individualismo fazia a diferença. Hoje o futebol é mais coletivo, com táticas diferentes. Os valores individuais não sobressaem tanto. O futebol de hoje é mais feio; o principal é vencer, não importa como. Faltas duras, agarra-agarra, puxões de camisa. A cobrança de um simples escanteio parece uma guerra na grande área!
Claro!: A Copa do Mundo levou 64 anos para voltar ao Brasil. Entre 1950 e 2014, quais as principais diferenças que o senhor citaria? Em 1950, o Brasil estava preparado para uma Copa? Na sua opinião, o país estará preparado daqui a cinco anos?
José Alberto: É relativo à época. Em 50, foi feito um bom planejamento e agora, 64 anos depois, com todos os recursos do momento atual, tais como informática, estádios e muito
mais, temos o dever de fazer tudo melhor. O tempo de preparação está adequado para que tal aconteça.
Claro!: O senhor acredita que hoje a tecnologia da comunicação, apesar de permitir ao mundo todo que acompanhe os jogos em tempo real, interfere na emoção de assistir a um jogo ao vivo no estádio?
José Alberto: No estádio você tem o indispensável calor humano; você é parte ativa do espetáculo. Em casa a emoção é a mesma, mas lhe dá o conforto que você não tem no estádio. É uma questão de gosto. Vou dar uma opinião pessoal: encerrei a minha participação em estádio na final da Libertadores, Fluminense x LDU.
Aqui (em Miami) você chega a um espetáculo e seu lugar está lá marcado, esperando por você. No Maracanã está tudo numerado, mas ninguém respeita. Sentar? Nunca! Tem que ficar de pé e em cima do assento, quando não se sobe para o apoio lateral! É brincadeira! Imagine, sair daqui (de Miami), enfrentar oito horas de vôo e, ao invés de assistir a um espetáculo, você sofre tudo isto que citei... não dá mais pra mim.
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