| Essa (dÃ)vida me maltrata tanto |
|
|
|
| Edições - É caro? Claro! |
| Escrito por André Cabette Fábio e Eduardo Tavares |
| Seg, 23 de Novembro de 2009 19:41 |
|
Deve haver umas 15 pessoas no local. Em um salão na Igreja Santa Ifigênia, centro de São Paulo, os participantes se cumprimentam antes que um deles peça a palavra, iniciando a reunião. C.M., 61 anos, casado, duas filhas, quatro cartões de crédito e um vÃcio. Há pelo menos 10 anos, dÃgitos vermelhos em seu saldo são recorrentes. Mas só há um ano ele descobriu não ter controle sobre seus gastos ou seu impulso por comprar, e decidiu procurar ajuda.
No salão da igreja, C.M. encontra outros membros dos Devedores Anônimos (DA). Por volta dos 50 anos, sua compulsão passava quase despercebida. O salário de técnico eletrônico de uma multinacional era mais que suficiente para sustentar a famÃlia e garantir alguns luxos. Porém, embora seu padrão de vida não tivesse aumentado, C.M. notou que sobrava cada vez menos dinheiro no fim do mês. Casos como esse são conhecidos da professora Leila Cury, do Instituto de Psicologia da USP. Ela diz que "sempre houve compulsão, mas o aumento das pressões, o maior oferecimento, a menor censura" influenciaram no agravamento dos problemas. Além da facilidade do acesso ao consumo, outras formas de prazer se tornaram de fácil alcance. "Agora eu vou gritar" Luiz entrou pela primeira vez num bingo em São Paulo da mesma forma que muitos jogadores compulsivos: para "fazer uma hora". Depois, o tempo que os bingos ocupavam em sua vida foi se dilatando. "Cheguei a passar 48 horas numa casa de bingo, sem saber se era dia ou era noite, se estava quente, se tinha sol". Leila Cury explica que o jogo tem uma particularidade: "a emoção, a sensação de poder ganhar a cada momento, que vem da liberação de endorfinas". Segundo Luiz, "sobe uma sensação muito boa e você fala ‘agora eu vou gritar'. O cara canta o número, você grita ‘Bingo!'. O jogo faz de você poderoso naquele momento: ‘bati, ganhei, vou receber uma grana'. Pagamos caro por esse prazer". Atualmente, Luiz integra um dos núcleos de apoio da Associação dos Jogadores Anônimos (AJA) em São Paulo. Diz que já chegou a gastar mais dinheiro com as cartelas do bingo do que poderia ganhar. "Estava jogando R$ 200 quando o prêmio era de R$ 150". Se o lucro deixa de ser a meta dos jogadores patológicos, a necessidade também deixa de ser a dos compradores compulsivos. "Comecei a comprar coisas que já tinha, como TV, câmera fotográfica", lembra C.M. "Eu precisava comprar. Tinha quatro cartões de crédito e estourei o limite de todos. Só me sentia aliviado quando passava o cartão pela maquininha". Ele passou a tomar empréstimos em financiadoras. "Uma vez, me ofereceram R$ 6 mil de crédito, e eu aceitei. Acabei pagando R$ 11 mil". C.M. chegou a ter R$ 22 mil em dÃvidas. A compulsão por jogos de Luiz trouxe o mesmo problema. "O jogo era o único momento em que eu me desligava de tudo. Era um momento muito particular da busca desse prazer". Num sábado livre, Luiz pensou "quem sabe eu não bato uma?" e foi para um bingo. Acabara de receber o salário do mês. "Quando vi, tinha ficado tudo no jogo. Voltei sem um centavo pra casa". Luiz e C.M. têm algo mais em comum: o limite. Ambos atingiram um ponto insustentável, que os fez reconhecer a hora de procurar ajuda. Quando Luiz finalmente foi a um dos 15 núcleos da AJA, estava "totalmente derrotado, com dÃvida até o pescoço, emocionalmente desestruturado, com aquela sensação de culpa". Os grupos trabalham da mesma forma, colocando pessoas com problemas parecidos em contato. Assim se torna mais fácil enxergar a compulsão e formas de lidar com ela. "Nosso trabalho é fazer cada um compartilhar sua experiência. O cenário do jogador compulsivo é sempre o mesmo, só mudam as pessoas". Luiz já está há 10 anos longe dos jogos. Já C.M., com a ajuda de seu grupo, supera dia a dia seus problemas. "Fico longe de supermercados quando tenho crises de abstinência. Estou aprendendo a viver com o que tenho". |
Comments