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Segredos de um ritual às cegas PDF Imprimir E-mail
Edições - Claro! no Escuro
Escrito por Carol Nehring   
Qua, 12 de Maio de 2010 18:40

Nos ritos de entrada na maçonaria, a escuridão é fundamental. Mas o que ela significa?

Ele foi vendado. Estava ali por ter aceitado um convite. Sentia-se apreensivo, ansioso. Não sabia o que o ritual de iniciação seria, não sabia o que iria encontrar, não sabia sequer quem o indicara para entrar na ordem. Subindo e descendo escadas, no escuro, era guiado por um desconhecido. Enquanto andava pelos corredores, sentimentos diversos o confundiam.
Temor? Ansiedade? A cegueira o deixava fraco e amedrontado. Não fazia ideia do que estava por vir, nem poderia se prevenir do que não podia ver. Os outros sentidos se aguçaram, prestava mais atenção em cada som, vozes, passos e portas.


Foi subitamente deixado numa pequena sala escura e sem janelas. Um odor de mofo e fumaça tomou o olfato e a venda foi retirada. O temor transformou-se em curiosidade. Uma vela em cima da mesa, papéis, uma ampulheta, um crânio. As inscrições nas paredes demonstravam o caráter simbólico do local, que lhe lembrava uma masmorra. Ele estava na câmara das reflexões. Ficou ali no silêncio, em silêncio leu os papéis. Refletiu, pensou na vida e na morte. O momento instigava o auto-conhecimento e a concentração. Conforme  instruído, redigiu seu testamento. Isolamento. Silêncio. Escuro. Não tinha mais noção
de quantas horas se passaram.

A porta se abriu. Foi vendado novamente. Levado ao templo passou por provas que representam os elementos da natureza. Por não ver nada, imaginava. Sua resistência nervosa, física e espiritual foram testadas; seu equilíbrio psicológico, seu destemor e sua confiança naqueles que se tornariam seus irmãos. Ele foi questionado sobre informações pessoais e sua opinião a respeito de liberdade, moral, virtude, vício. Sempre no escuro.


O ritual chega ao auge. Retirada a venda, recebe finalmente a luz. Enxerga de novo; vê o reflexo das espadas, as pessoas vestindo aventais e os símbolos - como o esquadro e o compasso. Começa a olhar tudo por uma nova perspectiva. Completo o ritual, ele agora é um maçom. (Veja o significado dos símbolos da maçonaria abaixo).


Nos ritos da maçonaria a escuridão tem significados múltiplos. Para o professor do departamento de psicologia da USP, Alejandro Klein, o escuro como ritual representa uma regressão: “O indivíduo fica desestruturado e refaz sua subjetividade, coloca-se em prova como consegue administrar seus medos, como confia no outro. É um ritual de transformação”. Sair da escuridão e transformar-se também é um preceito cristão, além de estar presente em outros grupos, como a Rosacruz.

Nossa vida é repleta de rituais e simbolismos envolvendo o escuro, mas nem sempre percebemos. A utilização da venda está em brincadeiras de crianças, como “cabra-cega”, ou num jogo sexual e ainda numa adivinhação de presentes num chá de cozinha. A escuridão é o secreto, o desconhecido. Nela, as sensações tornam-se mais intensas e assustadoras.

NOTA: A descrição do ritual maçônico no texto foi elaborarada a partir de entrevistas com membros da ordem, que preferiram não se identificar.

 

 

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Última atualização ( Seg, 24 de Maio de 2010 08:51 )