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Investigador do IML, pagodeiro, catador de latinhas, prostituta... Uma jornada de seis horas pela madrugada em busca dos profissionais que trabalham na noite.
Há cinco minutos dentro do puteiro, Juliana* interrompe nosso questionário: “Mas a gente não vai subir e foder?”. Constrangimento. Queríamos saber como era seu trabalho, sem ir tão “a fundo”. Era só o começo da caminhada escura em ruas de São Paulo, que ainda traria maiores surpresas.
Iniciamos nossa jornada às 23 horas, quando conhecemos Edson. “É melhor trabalhar durante a noite. Não tem trânsito, nem gente estressada”, conta. O taxista dirige seu carro há 15 anos, sempre noite adentro.
Edson diz que os maiores perigos estão guardados no final da madrugada. “São muitos acidentes nos cruzamentos aqui perto. Já ofereci o táxi para bêbados que recusaram e, quando vi depois, tinham capotado o carro”.
Apesar das tragédias presenciadas, Edson não deixa de ter histórias engraçadas para narrar. “Mulher bêbada é pior que homem bêbado. Algumas querem até mesmo tirar a roupa com o carro em movimento, mas aí eu tenho que impedir”, ri.
Encerrado o assunto, ouvimos um animado batuque no bar do outro lado da rua. Fubá nos recebe com entusiasmo e um copo de cerveja na mão. Junto com seis amigos, ele toca samba e pagode no Grupo Kizuera, sempre à noite, há quase dois anos. “É muito pouco. Tem grupo por aí com mais de 15 anos de estrada”.
Apesar do amor pelo samba, o Kizuera também passa por maus bocados. “Tem dono de bar que não quer pagar, que quer dar menos que o combinado. Vida de músico não é mole”. Apesar de tudo, o boêmio Fubá não larga o período noturno. “Tem coisa melhor que isso? À noite tomo minha cervejinha, toco meu samba e sou feliz, rapaz”. Fomos embora. Ainda era cedo: 23h30.
Passando por um cruzamento, avistamos o neon característico de um bordel. Precisávamos entrar. Contamos ao segurança que fazíamos uma reportagem. Ele fez cara de quem não acreditou e, com um sorriso malicioso no rosto, abriu passagem.
De imediato, fomos abordados por duas mulheres. Entre elas, Juliana, que insistia para algum de nós ir a campo conhecer o seu trabalho. Já sem a colega de profissão, a prostituta começou a falar sobre a sua carreira. “Não trabalho muito tempo e consigo tirar uma boa grana. Hoje não existem mais meninas que trabalham aqui porque passam fome. É opção de cada uma”, diz.
Juliana está na vida há um ano e meio, tudo por causa de um ex-namorado: “Eu era santinha, mas ele me traiu. Ele não gostava de vagabunda? Então virei vagabunda também!”. E você sente prazer? “Lógico! Se o cara for gatinho, não é tão difícil gozar”.
Dentre os seus familiares, apenas a irmã de Juliana sabe qual é seu verdadeiro ofício. “Minha família vive no interior. Eles acham que eu sou funcionária de uma adega de vinhos importados. Comprei o uniforme de uma loja e fui lá tirar uma foto. Aí coloquei no Orkut, ‘eu e o pessoal do trabalho’”, diverte-se.
De tempos em tempos, Juliana ainda voltava a pedir para irmos para um quarto. “Quando o cliente chega, já faço o convite. As pessoas vêm aqui para foder. Alguns querem fazer o que não fazem com a esposa. Mas também tem aqueles que só querem conversar”.
Amadores do jornalismo, despedimo-nos da profissional do sexo pagando-a um vinho como agradecimento.
As ruas do bairro de Pinheiros estavam cheias naquela véspera de feriado. Caminhamos desviando das pessoas que formavam uma fila de balada, até encontrar um ambulante. Meia noite e meia. Em cima de um Kadett preto, um enorme alto-falante e várias garrafas de bebidas. Kléber Jaider é vendedor irregular de destilados em festas. “Também sou DJ, tenho um trabalho fixo. Mas, no Brasil, vocês sabem, não dá pra viver só de um trampo”, diz.
Problemas financeiros o levaram ao negócio. “Tenho 40 mil reais de dívida. [Esse trabalho] é arriscado, mas não tem outro jeito”, afirma. Junto com sua esposa, Kléber comercializa, há dois anos, as “pingas” noite adentro. “Eu trabalho desde os oito e tudo que conquistei foi com trabalho”, ensina.
Seguimos em frente. Andamos até o cemitério São Paulo onde, de vivo, só vimos os moradores de rua que dormiam sob o portal de entrada. Subimos até o cemitério do Araçá e esbarramos com o florista Adelito. Perguntamos se ele não tinha medo de trabalhar ao lado dos túmulos pela madrugada. “Só tenho medo dos vivos”, ironiza. Continuamos.
Ainda no Araçá, entramos em um velório. Pelos mortos, os vivos sofrem. Muito choro, um ou outro consolo. Acordamos um funcionário. “Algum vigilante está trabalhando no cemitério agora?”, indagamos. Era uma da manhã. O senhor que acabara de despertar nos disse que “na administração” havia um, mas deixou claro que ninguém falaria conosco. Saímos e espiamos por sobre o muro daquele campo de tumbas, em direção a uma pequena casa iluminada. Nem sinal de vida.
Caminhamos até o Instituto Médico Legal (IML), no complexo das Clínicas, em busca de algum caso macabro. Estávamos nos cagando! Passamos por uma entrada mal iluminada e nos vimos numa sala de espera escura. Wilson, que atende pessoas no necrotério, assustou-nos com sua simpatia e entusiasmo. “Olha, meu amigo, já que nós fazemos jornalismo, nós temos que falar corretamente”, brincou, após referirmo-nos a nós mesmos como “a gente”. “Sinto muito”, mas ele não podia nos ajudar.
Wilson nos encaminhou para o investigador do IML. Caminhamos até outro prédio, onde encontramos uma moça sentada na escada. Apresentamo-nos, e ela foi até uma porta de cor cinza (assim como o ar de todo o local) e bateu: “Eugênio*, uns rapazes estão procurando você”. Aguardamos.
Com cara e voz de sono, a porta é aberta. O homem de meia idade nos cumprimenta e senta em um dos numerosos bancos vazios daquele instituto. Eugênio não tem contato com os defuntos. Ele “previne a criminalidade”, que fora constante “por volta de 1990, antes de eu começar a trabalhar aqui”, como diz. “Os elementos ficavam circulando por aqui, dando o golpe”, referindo-se ao estelionato, famoso 171. Criminosos vendiam serviços funerários que só ficavam na promessa, assim como caixões inexistentes.
O investigador não gosta do escuro. “Quem trabalha à noite é porque tem outro turno durante o dia”, conta. Para Eugênio, os males à saúde causados pela rotina invertida não compensam, porque o salário é o mesmo de quem trabalha de dia.
Do IML, seguimos ao pronto socorro do Hospital das Clínicas. Barrados por um segurança, aproveitamos a presença de um enfermeiro que fumava do lado de fora do ambulatório. “O desgaste físico e mental é muito grande. Ganho um pouco a mais, mas a rotina é estafante”, contou Antônio, no atendimento noturno há 15 anos.
O enfermeiro confessou que recorre ao café e ao cigarro para se manter de pé. Entretanto, é preciso muito mais que isso para aguentar o ritmo do maior hospital do país. “O hospital recebe pacientes de toda Grande São Paulo e, além do mais, à noite ainda temos que lidar com os casos pendentes do turno anterior” Pra trabalhar com isso, é preciso ter vocação. Alguns chefes não suportam a carga e logo pedem para mudar de horário”, explica Antônio enquanto tomava fôlego para voltar ao serviço.
Pegamos o caminho de volta. Cansados pela longa caminhada, nos vangloriávamos pelos cinco ou seis quilômetros percorridos até aquele momento. Vimos um senhor de cabelos grisalhos juntando latinhas do outro lado da rua. “Moro na Liberdade, venho pela avenida Paulista, ando pela rua Estados Unidos, depois subo a Teodoro Sampaio e volto para casa”, relata seu Alcidos. Pelas nossas contas, mais que o dobro do que tínhamos andado até ali. Aos 56 anos de idade, o catador faz aquele trajeto diariamente há oito anos, sem folga ou férias, para poder se sustentar. À noite, ao menos, se poupa do sol e pode juntar as latas acumuladas ao longo do dia.
O catador, de fala sempre pausada e cuidadosa, estudou até o segundo grau e trabalhou por 37 anos como atendente de enfermagem. Mas a profissão foi extinta e ele não teve oportunidade de fazer um curso técnico. Sem alternativas, passou a se manter recolhendo latas pelas ruas da capital.
Acompanhamos seu Alcidos por algumas centenas de metros, até o ponto no qual ele partiria rumo a um depósito para vender os sacos cheios de latas que conseguira. Eram quatro horas da manhã e os jornais já eram distribuídos pelas casas. Concordávamos em parar por ali. Até o momento em que atravessamos um cruzamento e vimos uma loja de artigos eróticos.
Mal entramos no sex shop e já tivemos de sair. A vendedora Cene nos pediu para deixar os dois casais, que estavam juntos, mais à vontade. Enquanto esperávamos poder entrar, uma garota vomitava para fora de seu carro. O quarteto desceu. Nós, trio, subimos.
Vibradores, “cintaralho”, gel. E Cene garante que conhece tudo. “Esse não é um trabalho que se aprende em um mês. Os clientes sempre entram com muitas dúvidas e cada um dos nossos produtos envolve a saúde dos consumidores”, diz ela, que está na função há um ano e meio.
Cene prefere a noite, mas sabe bem quais são os seus problemas. “Como a noite é um período de diversão para a maioria, as pessoas não enxergam que tem gente trabalhando, que não está no momento de lazer. Às vezes somos desrespeitados”, lamenta. Nós enxergávamos: estávamos exaustos.
Dez pessoas e cinco quilômetros mais tarde, uma reportagem na cabeça. Das onze às cinco, do inferninho ao cemitério, fomos, ao menos por uma madrugada, trabalhadores da noite paulistana.
* Nomes fictícios
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