| A Escuridão |
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| Edições - Claro! no Escuro |
| Escrito por Maria Celina de Queirós Nasser |
| Qui, 13 de Maio de 2010 13:06 |
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A ideia de “escuridão” está presente em nossa cultura e na mente de todos nós, de diversas formas diferentes - desde o medo que assusta as crianças na ausência da luz até a noção de trevas e do Mal. Em busca de explicações para essa presença do “escuro” no imaginário humano, o Claro! convidou Maria Celina de Queirós Nasser, professora do Departamento de Ciência da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, para escrever o artigo abaixo.
A Noite se aproxima, mãe do Sono e do Falecimento, a luz torna-se tênue e a escuridão se instala e domina. Sons estranhos, vultos não identificados nos cercam e nos ameaçam. O medo percorre nossa espinha dorsal, frio como uma lâmina. É quando acreditamos que os demônios estão soltos, escondidos nas sombras. E, provavelmente, é isso mesmo que acontece. Segundo Carl Gustav Jung (1875-1961), a sombra é um arquétipo, isto é, uma energia psíquica presente no inconsciente, e que acolhe a parte reprimida de nós mesmos, formando imagens. É o nosso lado escuro, ameaçador e indesejado, construído a partir de todos os desejos e emoções incompatíveis com os padrões sociais (ego ideal - formado pelos ideais ou padrões sociais, familiares e religiosos que modelam o desenvolvimento do ego de uma determinada época e espaço.). Na escuridão também estão nossos fracassos e medos. Tudo aquilo que é rejeitado pelo ego ideal, isto é, pelos padrões considerados belos, bons e verdadeiros por uma sociedade, historicamente datada e situada, é recolhido pelo inconsciente, e lá é construído o arquétipo da sombra. Para Jung, há o inconsciente individual e o coletivo. O inconsciente pessoal representa as camadas superficiais do inconsciente, a qual faz fronteira com o consciente. Nele (inconsciente pessoal) estão incluídas as percepções subliminares que contêm uma energia que não é suficiente para chegar ao consciente, ou seja, que possa influenciar os processos do consciente. Jung também diz que o inconsciente pessoal é constituído essencialmente de conteúdos que já foram conscientes e, no entanto, desapareceram da consciência por terem sido esquecidos ou reprimidos. Já o inconsciente coletivo representa as camadas mais profundas do inconsciente, é comum a todos os homens, e sua existência se deve à hereditariedade. Isso quer dizer que o inconsciente coletivo é o que há de comum em todos os homens e que não foi construído de maneira individual, mas sim coletivamente. Assim como qualquer energia necessita de informação para tornar-se matéria ou imagem, o arquétipo da sombra recolhe as informações disponíveis, advindas do inconsciente individual ou do coletivo, e forma uma imagem. Esta imagem aparece em nossos sonhos, mitos, histórias infantis, contos e expressões religiosas. Essa herança do passado deixa no inconsciente do homem e da mulher uma imagem coletiva arquetípica. Cada arquétipo possui predisposição para acolher um tipo de informação. Por exemplo, a imagem do Mal é um exemplo da manifestação do arquétipo da sombra que acolhe as informações maternais do mundo exterior relacionadas à maldade. Assim, a cada momento histórico, imagens arquetípicas do Mal são criadas, respondendo ao seu tempo. Retornando à escuridão, tudo que nos é desconhecido assusta, causa medo. Quando “a luz” se faz - e aqui usamos luz simbolicamente como “a Verdade” -, quando conhecemos, quando sabemos o que são as coisas, o medo tende a desaparecer. Com o conhecimento, controlamos o mundo. É assim desde os primórdios: descoberta do fogo; descoberta do funcionamento do corpo humano, entre outros exemplos. Esse mecanismo faz parte do ser humano, e fica compreensível o uso desse medo não só pelas religiões, que pretendem nos afastar deste escuro, representado pelo Mal, mas por qualquer poder instituído. A discussão sobre o Bem e o Mal - se eles existem separadamente como entidades distintas, ou se são faces de uma mesma moeda - é bem antiga, e até hoje permeia nossos estudos e discussões. Se optarmos por uma compreensão dialética (princípio da contradição inclusiva) do ser humano, então o bem e o mal existem em cada um de nós. Assim, simbolicamente, representamos o Bem com a luz e o Mal com a escuridão e as sombras. No escuro, não sabemos o que está acontecendo, e podemos ser dominados por qualquer força maior. A representação do diabo ou de uma figura que represente o Mal é muito didática, pois essa força (o “Lado Negro da Força” em “Guerra nas Estrelas”) fica mais fácil de ser combatida quando assume uma forma. A arte, como uma expressão simbólica do mundo interior do ser humano, oferece-nos belíssimos exemplos de representações da luz e sombra. Maria Celina de Queirós Nasser é professora do Departamento de Ciência da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e Mestre em Ciências da Religião pela PUC-SP. E-mail:
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| Última atualização ( Seg, 24 de Maio de 2010 09:19 ) |
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